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 • POESIAS.
 

Couve-Flor.
A Poética do Arroto.
Um Furo.
Trombeta.
Curriculum Vitae.
Nacional Kid.
Um Edifício em Escombros.
A Seta de Satã.
Poesia.
Apócrifo Leitor.
Abobrinhas.
O Transeunte e o Morto-Vivo.
Lapa.
A Margem.
Memorandos.
Nossos Comerciais.
Rio Sul.
Os Quatro Excrementos da Manhã.
Uma Música Serena.
Desavisadamente.
Um céu diáfano.
A baba.
Mata densa e fechada.
Feriado nacional.
Novos Tempos.
Putas pelas patas.

 
 
 
COUVE-FLOR.
 
Couve-flor, uma flor em si.
Ensimesmada, sem bouquet.
Que ninguém pudesse pôr na lapela.
Uma flor planejada.

Enfim, uma flor que alimentasse.
Flor-funcional. Inviolável.
Que não produzisse
volúpias como a flor do ópio.

Fosse isso suficiente.
Mas não é. Flor-bruta,
abrupta, que se abre como um cancro.

Flor amarela, flor-infecção.
Como o cu do meu amor.
Perversa e cheia de flocos.
 
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A POÉTICA DO ARROTO.
 
A poética do arroto consiste
numa massa de ar condensada.
De dentro pra fora, explode-se.
De repente, desmancha-se.

Então, a gente sente um alívio imediato.
Como se flutuássemos, a gente
nem mesmo repara. E continua.
Incansável, ao sabor dos dias.

E vamos carregando nosso fardo,
pelo qual muitos se preocuparam
e construíram teorias interessantíssimas.

Esse arroto, no entanto, eu traduzo.
Hieroglifo ? Pós-modernismo ?
Esse arroto significa poesia.
 
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UM FURO.
 
Havia um furo bem no meio.
Pelas bordas podia se ver,
senão imaginar, o inimaginável:
o furo ali estampado.

Imaginam-se as tripas, as vísceras,
as convulsões, a hemorragia...
porque tudo isso é possível.
Até mesmo o olhar absorto.

de um Homem que vai morrer,
a gente pode imaginar.
Por exemplo: ele foi à padaria

e nunca mais voltou pra casa.
Mas aquele furo não dizia nada.
Era um furo fora de toda História.
 
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TROMBETA.
 
Assim como o fogo-fátuo
que faz da noite mais escura
uma noite de astros deslumbrantes.
Da luz fuosforescente

que ilumina a minha rua
e às vezes parece a lua cheia.
Ou quando tomo êxtase,
nas noites de solidão e desespero,

e danço a noite inteira
e faço amor contigo uma, duas, três vezes.
Por isso, meu amor, é que eu te digo:

trombeta pode ser o instrumento dos anjos;
mas pode também ser o chá,
através do qual eu os vejo tocando.
 
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CURRICULUM VITAE.
 
Não tenho curso de informática.
Não fiz estágio em lugar nenhum.
Não sou ligada à Internet.
Não tenho fax, nem micro.

Nome: esqueci.
Faculdade: abandonei.
Não dirijo, nem falo inglês,
se é que você me entende.

Experiência em ficar sentado no sofá
tirando meleca.
E de vez em quando escrever à mão

coisas de somenos importância.
Assim como esse curriculum.
Quem sabe um dia não sou aproveitado ?
 
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NACIONAL KID.
 
Isto é um visto.
Isto é um passaporte jogado ao mar.
Isto é o navio.
Isto é o horizonte sombrio.

Isto é eu.
Isto é um cu aberto pro céu.
Isto é a flor.
Isto é alguém acenando pra ninguém.

Isto é sim.
Isto é não.
Isto é ping-pong.

Rim-tim-tim.
Vigilante Rodoviário.
Nacional Kid, isto sim.
 
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UM EDIFÍCIO EM ESCOMBROS.
 
Caríssimo leitor,
quero vos dizer que,
a partir de hoje em diante,
eu não digo mais porra nenhuma.

Escrevo-te esses versos
como se fossem de um autômato.
Deu pane no computador.
Versos feitos de restos.

Caríssimo leitor,
aceite essa corbélia,
cujas flores são miasmas

e si mesmos fora de si.
Um monte de pedras ajuntadas de
um edifício em escombros.
 
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A SETA DE SATÃ.
 

Reta, ela avança, a seta
de satã, essa mesma
por quem guardei tantas esperanças.
Ela voa como se pudesse atingir o alvo.

E erra. Seu destino é esse.
Pra tanto esforço, nenhum êxito.
A seta de satã ressalta
o tempo perdido e a falta de sorte.

Lá vai ela, a toda.
Como uma bala perdida.
Um pedaço de poesia.

A seta de satã sabe,
no vôo que empreende,
o que é estar longe do alvo.

 
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POESIA.
 
Entende o que digo ?
Como, se nem eu mesmo entendo
e tudo que falo são palavras ao vento ?
Então fica combinado assim.

Eu falo e você não entende.
E quando você fala,
eu também não entendo.
De forma que ficamos assim.

Dois surdos que se falam.
E quando o fazem, se bastam.
Diálogo que se alastra pelo mundo à fora

e contagia os outros.
Entra por um ouvido e sai pelo outro.
Você não entende ? Isso é poesia.
 
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APÓCRIFO LEITOR.
 
O que seria de um
poeta se não fosse o editor ?
De um manuscrito se não fosse o livro
que o faz chegar a um longínquo leitor ?

Como eu só tenho manuscritos,
me vem a sensação
de que eu vivo e não existo.
Meu símbolo é a caneta.

E eu insisto.
Os tempos mudam e eu continuo.
Vivo e não existo.

Um poeta sem editor.
Cujos escritos são cavalos.
Apócrifo leitor. Meu fantasma. Meu céu.
 
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ABOBRINHAS.
 
Recheadas com carne, vão ao forno
e podem ser servidas com arroz e feijão.
Uma forma criativa de usar legumes,
as abobrinhas, além de tudo, são decorativas.

Podem também ser servidas em rodelinhas,
como entrada, e banhadas no azeite.
Para não mencionarmos o entulho -
sopa de legumes na qual têm presença certa.

Fim de século. Três horas da manhã.
Muito mais menos do que mais.
Pensando bem: à bancarrota.

Sem jamais perder a elegância.
Eu elejo elas - as abobrinhas -
o sentido da minha poesia.
 
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O TRANSEUNTE E O MORTO-VIVO.
 
"Cada um na sua.
Mas com alguma coisa em comum".
Esse foi o pensamento de um transeunte,
entre milhões de outros,

a caminho do trabalho.
Quem o fez pensar assim ?
Um atropelado, meio morto meio vivo,
à beira do caminho.

Ao vê-lo, o transeunte dissera
como quem pede desculpas e continua.
O morto-vivo idem.

Nas últimas, olha o transeunte e repete:
"cada um na sua,
mas com alguma coisa em comum".
 
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LAPA.
 
Lapa das putas de ontem.
Cujos olhos são lanças
que correm na escuridão.
Lapa dos olhos que cegam.

Lapa também de hoje.
Dos automóveis que olham
e dos travestis que passam.
( Lapa das pernas, bundas e quadris

que nos arrebatam ).
Lapa de ontem e de hoje.
Dos olhos e das bundas.

Das putas e dos travestis desnudos.
A mesma Lapa de sempre.
Entre elas, um arco, um elo.
 
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A MARGEM.
 
Desde que me separei dos homens
e me trancafiei no quarto,
tenho escutado a vida.
Como se para escutá-la fosse preciso a margem.

Agora mesmo acabou a novela das oito.
O vizinho do lado está rindo.
Qual é o fato engraçado que o faz rir tanto ?
Será mesmo engraçado ?

Ou será ele um homem feliz ?
A criança chora. O cachorro late.
E o homem ri cada vez mais alto.

Será isso então a vida ?
Esse ruído infinito ?
Esse burburinho que não pára ?
 
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MEMORANDOS.
 
Releio rascunhos das cartas de amor
e não duvido tê-los escrito.
Duvido tê-los sentido
__ como se amar fosse impossível.

Releio como se pudesse apalpar
e só restasse o vazio.
É que, quando escritas, as palavras pareciam outras.
Hoje são ocas.

Então fôra pra isso ?
Releio cartas de amor e não duvido
que pudessem elas enganar-me tanto.

Foi quando descobri os memorandos
__ rápidos e sem nenhuma sutileza __
como uma porrada no estômago.
 
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NOSSOS COMERCIAIS .
 
Um minuto pros nossos comerciais
__ está aí o que eu mais queria.
Aumentem o volume ! Façam silêncio !
Esse é um novo tempo.

Espaço intermediário entre o que foi
e o que vai ser ainda,
estamos no coração do momento.
Aumentem o volume ! Façam silêncio !

Essa é a terra de ninguém.
Neles eu me reconheço
sem identidade, sem sexo e sem nome.

Aumentem o volume !
Façam silêncio !
São os nossos comerciais.
Rápidos, coloridos e selvagens.
 
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RIO SUL.
 
Caminho pelo Rio Sul.
Essas são as minhas trilhas.
Não passo por paisagens bucólicas
nem ando mais entre multidões na rua.

Estaciono o carro na garagem.
Subo as escadas rolantes.
Vou comprar um Videocassete.
Por que não ? Por que não ?

Estou hoje sem pensamento.
Tenho estado sempre assim.
Agora passa uma jovem.

Olhamo-nos sem nenhum calor.
Somos puros fantasmas.
Nada mais nos atinge.
 
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OS QUATRO EXCREMENTOS DA MANHÃ.
 
Primeiro excremento da manhã:
não tenho pai nem mãe.
É bom saber disso : estou vazio.
Não tenho significado, my dear.

Segundo excremento da manhã :
preocupações financeiras, dor de barriga,
em quem você vai votar para presidente ?
Tome uma, tome duas, tome três.

Terceiro excremento da manhã :
exílio todo dia.
Por que isso foi acontecer comigo ?

Quarto e último excremento da manhã :
já está tudo mole.
A falta de forma incomoda.
 
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UMA MÚSICA SERENA.
 
Já que por todos os lados, pó, deserto e nada.
Nenhum engenho que me orgulhasse.
Nenhum amor que me distraísse a vista.

Pó, deserto e nada.
No quarto desarrumado.
Na cama por fazer.
Nas roupas jogadas por todos os lados :

pó, deserto e nada.
Estranha canção.
Monstros batem à minha porta.

Moscas varejeiras sobre um pedaço de pão.
Estou apodrecendo !
E ainda assim essa música serena.
 
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DESAVISADAMENTE.
 
Você que, desavisadamente,
como quem escorrega numa casca de banana
e cai, se encontra aqui, defronte a mim,
a mente e o coração vazios.

Sei o quanto isso te amola.
Sei também quanto teu tempo é precioso.
Mas espera um pouquinho.
O soneto já vai acabar.

Estamos entrando na reta final.
Viu como nada disso te faz mal ?
Creia em mim.

Estamos nos últimos momentos.
Não quero dizer coisa alguma
senão "muito obrigado, até nunca mais ".
 
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UM CÉU DIÁFANO.
 
Uma nuvem diáfana percorria o céu
seguida por muitas outras.
E eram tantas que pareciam ilhas
flutuantes a singrar mares.

Iam ao sabor dos ventos
até formar um continente,
cuja língua todos conheciam
e era um bálsamo para os ouvidos.

Assim ele ia divagando
enquanto a ambulância não vinha.
E já nem sentia suas pernas esmagadas

sobre o calor insuportável do asfalto.
Um pivete aproveitava para roubá-lo
e ele para mirar o céu diáfano.
 
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A BABA.
 
Ao abrir lentamente a maçaneta,
encontrei-a ali dormindo : minha empregada.
Vê-la naquela posição - barriga pra cima -
fez-me entrar em conjecturações infinitas.

As estrelas da Ursa Maior.
Os barcos que voltam vazios,
cujos tripulantes teriam tido, minutos antes,
o pressentimento que não voltariam.

Enquanto isso as crianças brincam
despreocupadamente nos jardins
e o gondoleiro canta.

Tudo isso vinha em jorros,
enquanto eu mirava a baba,
translúcida, num canto de sua boca.
 
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MATA DENSA E FECHADA.
 
No interior da mata virgem,
labirintos, febre amarela, bichos.
Nossa atenção se redobrara :
fomos surpreendidos por um bando de macacos.

Os raios do sol não penetravam
a mata densa e fachada.
E os índios há muito nos espreitavam,
sem que pudéssemos avistá-los.

Tudo se encaminhava para o pior
quando entraram os comerciais.
Seu Ari roncava ao meu lado,

enquanto eu, aproveitando o intervalo,
compreendi a minha vida :
mata densa e fechada.
 
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FERIADO NACIONAL.
 
Eis mais um feriado.
O comércio fechou as portas,
as escolas interromperam as aulas,
e os pequenos burgueses foram para suas casas de veraneio.

Aqui fiquei eu.
Cara a cara com o feriado.
Sem vitrines coloridas
e sem a rotina de mais um dia de trabalho.

Inapelavelmente nu e só.
Não pude ir à biblioteca
porque estava fechada.

Não pude ouvir buzina
e nem cheirar fumaça de óleo diesel.
Olhei pra mim e achei horrível.
 
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NOVOS TEMPOS.
 
Que tempos são esses ?
- perguntou-me a professora de filosofia.
Então respondi à minha maneira :
são tempos de pura sandice.

Só os loucos amam, professora.
Os outros trabalham,
à noite assistem televisão,
e depois dormem até o dia raiar.

Quando amanhece, voltam para o trabalho.
Enquanto eu durmo, sonho,
trepo e não gosto de trabalhar.

Esses são os novos tempos, professora.
Tempos de escrever como quem fala.
E não dizer absolutamente nada.
 
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PUTAS PELAS PATAS.
 
Então você me deu a mão.
Puro gesto tresloucado.
Você me deu a mão e
eu não pude imaginar.

Que a mão pudesse se dar.
Você a deu
como quem diz :
viu, a mão se dá.

Ah, puta, logo compreendi.
És puta para estender
a pata, não a mão.

Que puta não tem mão,
tem pata, como todas :
putas pelas patas.
 
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