"SKYLAB IV "

IML
Arrebentados
O meu pau fica duro
Puta
Música para paralítico
Samba (Eu quero saber quem matou)
Parafuso na cabeça
Bunda suja
Um carro hermeticamente fechado
Ninguém
Lava as mãos

Mictório
Eu esporro
Desarmônica
Por dentro, Por fora

CD5
 
 
IML.       CD 5
         
Abri a geladeira do IML.
Cadáver gelado, cadáver é assim.
De boca entreaberta, cadáver sem rim.
Cadáver com bala, com cheiro ruim.
Cadáver de fato, cadáver sem fim.

Abri a geladeira do IML.
Cadáver do morro, cadáver eu vi.
Cadáver sem terra, cadáver barão.
Cadáver polícia, cadáver ladrão.
Cadáver turista, cadáver sertão.

Abri a geladeira do IML.
Cadáver com bunda, com HIV.
Cadáver cantando, cadáver é assim.
Cadáver no sangue, cadáver feliz.
Cadáver que anda, que olha e que vê.
Cadáver agora, cadáver aqui.

       
         
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ARREBENTADOS .       CD 5
         
Eu urinei na tua boca,
Evacuei na tua cara,
Chicoteei a tua bunda,
Te algemei na minha cama.
Te chamei de filho-da-puta,
Você falou: muito obrigado.
Te encestei uma porrada
Que te deixou fora de esquadro.

Depois, eu te pedi a mesma coisa,
Você não se fez de rogado
E deu um chute no meu saco
Aí então caí, caí de quatro no meu quarto,
Fiquei no chão estatelado,
Nós somos dois arrebentados.

Sim, fomos pra rua de mãos dados,
Os transeuntes se chocavam,
O nosso amor é uma navalha.
Tem mais, não suportamos informática,
Nós tamos sempre na larica,
Nosso futuro ninguém sabe.

       
         
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O MEU PAU FICA DURO .       CD 5
         
Doutor, me explica: por que é que às vezes
Quando eu fico parado, sem fazer nada,
O meu pau fica duro?
Não é bexiga cheia,
Não é mulher pelada,
É assim de repente, o meu pau fica duro.

O meu pau fica duro, o meu pau fica duro...

Não deixa não, o samba morrer,
O samba chegou, o samba é você.
Não deixa não, o samba morrer,
O samba chegou, o samba é você.

O meu pau fica duro, o meu pau fica duro...

       
         
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PUTA.       CD 5
         
Você vai ao samba.
Uma cabrocha: só no sapatinho.
Gostosa!!!!!
No final das contas vocês vão pro Motel.
Transam a noite inteirinha.
Trinta dias depois, ela volta grávida
E quer ter o filho.
Conclusão: você pagar pensão pro resto da sua vida.
Ela te ama?
Não!!!!!
O quê que ela é então?
Puta, é puta!!!!!

Mas você insiste,
Não entrega os pontos
Vai ao Shopping, quer comprar uma calça Lee.
Uma vendedora vem ao seu encontro
E te trata pelo nome, como se vocês fossem íntimos.
Gostosa!!!!
E sensual, provocante...
Você não enxerga mais nada.
Compra calça, cueca, meia, sapato.
Conclusão: ela é uma vendedora?
Não!!!!!!
O quê que ela é então?
Puta, é puta!!!!!

Cidade do Rio de Janeiro,
Zona sul, garota de Ipanema.
Você quer morar lá.
Tem money? Não.
Então, não pode não.
Conclusão: essa cidade te ama?
Não!!!!!!
O quê que ela é então?
Puta, é puta!!!!!

“Calma, quê isso?
Você tá tão revoltado”, disse a psicanalista diante do meu delírio.
É que todas as coisas que eu via – criança, fábrica, escola... –
Todas elas pareciam putas.
Trinta minutos depois, eu paguei a consulta
E voltei sozinho pra casa.
Com aquela sensação:
Puta, é puta!!!!!!!!!

       
         
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MÚSICA PARA PARALÍTICO .       CD 5
         

Música para paralítico,
Música para paralítico.
Pra quem tomou um tombo, um tiro,
Porrada na cabeça.

Eu não quero flor, ô ô.
Eu não quero sol, ô ô.
Eu não quero ouvir, não quero falar,
Não quero entender, não quero explicar.
Eu não quero ver, ô ô
Eu não quero ver, ô ô
Cadeira de rodas rodando,
Cadeira de rodas rodando,
Cadeira de rodas rodando
Na boquinha da garrafa.

       
         
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SAMBA (EU QUERO SABER QUEM MATOU).       CD 5
         
Eu quero saber quem matou Tom Zé,
Eu quero saber quem Walter Franco,
Eu quero saber quem matou Jorge Mautner,
Eu quero saber quem matou Jards Macalé,
Eu quero saber quem matou Arnaldo Antunes,
Eu quero saber quem matou Lobão,
Eu quero saber quem matou Itamar Assunção,
Eu quero saber quem matou Chacal,
Eu quero saber quem matou Fausto Fawcett,
Eu quero saber quem matou Arrigo Barnabé.
Eu quero saber quem matou,
Quem matou? quem matou? quem matou?
       
         
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PARAFUSO NA CABEÇA.       CD 5
         
Põe um aparelho no seu dente,
Coloca a argola na orelha,
Depois põe esse piercing na tua língua,
Injeta silicone no teu peito,
Faz uma porção de tatuagem,
Encosta na tua pele ferro quente,
Imprime no teu corpo uma palavra,
E põe um parafuso na cabeça.
Faz uma trepanação no cérebro,
Puxa, corta, rasga e aperta.
O teu sexo, o teu sexo.
Faz um pieling, põe um marca-passo,
Se mutila todo e fica vesgo,
Introduz um córneo na tua testa
E põe um parafuso na cabeça.

Põe um parafuso na cabeça, põe um parafuso na cabeça....

       
         
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BUNDA SUJA.       CD 5
         
Eu tava andando no meio da rua,
Quando comecei a sentir os efeitos gasosos
De uma empada estragada.
Saí em disparada pela rua
E entrei no primeiro botequim.
Mal tive tempo de arriar as calças
E descarreguei.
Depois fiquei olhando os desenhos na parede:
Um piru, uma bunda, uma porção de telefones
E descobri uma verdade simples, absoluta, inelutável:
NÃO TINHA PAPEL HIGIÊNICO.
Seu Joaquim!!!!! Papel higiênico!!!!!!
Seu Joaquim!!!!! Guardanapo!!!!!!
Então o jeito foi levantar as calças
E sair pela rua com aquela coisa pastosa por entre as pernas.
E deu até vontade de cantar, e deu até vontade de cantar, e deu até vontade de cantar:
Eu olho pro céu, eu olho pro sol,
Eu olho as estrelas, eu olho pra lua,
Olho o universo, a via láctea,
Eu olho pra mim no meio da rua:
Ô, ô, ô, BUNDA SUJA, BUNDA SUJA,
Ô, ô, ô, BUNDA SUJA, BUNDA SUJA.
       
         
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UM CARRO HERMETICAMENTE FECHADO.       CD 5
         
Um carro hermeticamente fechado.
De dentro, a gente não enxerga nada
Correndo, estamos de olhos vendados
Em grande velocidade.

É assim o meu baião
E não tem mais nada não.

       
         
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NINGUÉM .       CD 5
         
Olhem
Olhem como
Olhem como se
Olhem como se eu
Olhem como se eu não
Olhem como se eu não fosse
Olhem como se eu não fosse ninguém
Olhem como se eu não fosse ninguém senão
Olhem como se eu não fosse ninguém senão um, apenas um

Ninguém, ninguém, ninguém...

       
         
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LAVA AS MÃOS .       CD 5
         

Primeiro questão: quando você mija,
Você lava as mãos
Antes ou depois?
Antes e depois?
Ou nem antes, nem depois?

E quando você evacua.
Você lava as mãos
Antes ou depois?
Antes e depois?
Ou nem antes, nem depois?

E quando você bate uma punheta.
Você lava as mãos
Antes ou depois?
Antes e depois?
Ou nem antes, nem depois?

E quando você introduz o dedo.
Você lava as mãos
Antes ou depois?
Antes e depois?
Ou nem antes, nem depois?

E quando você aperta o gatilho.
Você lava as mãos
Antes ou depois?
Antes e depois?
Ou nem antes, nem depois?

E quando você mata a sua mãe.
Você lava as mãos
Antes ou depois?
Antes e depois?
Ou nem antes, nem depois?

E quando você estupra sua filha.
Você lava as mãos
Antes ou depois?
Antes e depois?
Ou nem antes, nem depois?

       
         
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MICTÓRIO .       CD 5
         

Levei uma porrada no mictório,
caí em cima da merda, bebi uréia,
corri pro lavatório: não tinha água.
Olhei pelo espelho: que sacanagem!!!!

Saí pela avenida desatinado,
Chamaram até polícia, fui autoado,
Fui preso numa cela, de madrugada
Vieram dois crioulos e me curraram.

Mas na manhã seguinte,
Que maravilha!!!!
Me deram armistício,
Tive alforria,
Saí pela avenida desembestado,
Veio uma viatura e nova porrada.

Pus sangue pela boca, pelos ouvidos,
Caí em estado-de-coma, hemorragia,
E até os transeuntes que ali passavam,
Sentiam um arrepio e viravam a cara.

O sangue foi correndo pela cidade,
Desembocou na praça, encheu as casas,
Correu no meio fio, pela calçada
E desaguou no meio de um mar de náufragos.

O mundo estava em crise,
Como é que eu posso?!
Fizeram alquimia com a hemoglobina,
O monstro foi nascendo em laboratório
E de repente o sangue virou petróleo.
Primeiro foram os presos da Ilha Grande,
Depois os brasileiros de oitenta anos,
Chegou a vez dos índios, dos traficantes,
E por fim foram os mendigos e os delirantes.

Fizeram um monumento em minha homenagem,
Tirei fotografia, ganhei aplausos.
Falei com o presidente
Da rede Globo
E fui condecorado com o prêmio Nobel.

Levei uma porrada no mictório,
Caí em cima da merda, bebi uréia,
Corri pro lavatório: não tinha água.
Olhei pelo espelho: QUE SACANAGEM!!!!!!

       
         
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EU ESPORRO .       CD 5
         

Eu esporro, você cospe,
Eu esporro, você engole.

O que é meu, o que é seu,
Defecar, contrair.
Duvidar, refletir,
Mastigar, deglutir.

Eu esporro, você cospe,
Eu esporro, você engole.

Todo céu, todo mar,
As estrelas, o luar.
Respirar, insistir,
Copular, conseguir.

Eu esporro, você cospe,
Eu esporro, você engole.

Contorcer, urinar,
Derreter, transpirar.
Surpreender, delirar,
Exprimir, espirrar.

Eu esporro, você cospe,
Eu esporro, você engole.

Ingerir, injetar,
Escrever, latejar,
Imprimir, prescrutar,
Espremer, estuprar.

Eu esporro, você cospe,
Eu esporro, você engole...

       
         
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DESARMÔNICA .       CD 5
         

Vou pra rua distrair,
Quando chego lá em casa,
Vejo a minha mulher morta
Currada, currada.

Tô no século XXI,
Explodi minha cabeça
E hoje eu vivo só de restos
Do samba, do samba.

Atravesso a Mem de Sá,
Quando chega na Tijuca,
Volto para a Cinelândia,
Estácio, Catete.

Eu queria te dizer,
Quando chego no espelho,
Vejo apenas uma sombra
Estranha, estranha

Gosto muito de comprar,
Eu vou ao supermercado,
Tenho uma porção de tique
Nervoso, nervoso.

Vejo a lua sobre o céu,
Eu vou pisando destroços,
Tamos no terceiro mundo
Do samba, do samba.

Quero muito te dizer
Mas esqueço totalmente,
Ligo a tv e durmo
Capado, capado,

       
         
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POR DENTRO, POR FORA .       CD 5
         

Por dentro, por fora,
Por dentro, por fora,
Você não entende
Tô sempre por fora.
Pra eu estar por dentro,
Eu estou por fora,
Pra eu estar por dentro,
Eu estou por fora,
Você não entende essa minha lógica,
Eu estou por dentro
Porque estou por fora.

       
         
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